sábado, 2 de abril de 2011

O dia-a-dia de uma menina/mulher com pouco, ou quase nenhum peito


Venho contribuir com mais um testemunho de raparigas com pouco peito, ou no meu caso, a quase inexistência deste.

Para muitos a questão das meninas se queixarem de ter um peito pequeno é pouco relevante, e trata-se apenas de um capricho estético e de influências dos media na sociedade de hoje que tentam impingir uma imagem perfeita onde as mulheres são todas magras, com curvas bem definidas, peles perfeitas, cabelos brilhantes e sempre penteados, ausência de pêlos, entre muitas outras coisas.

Pois bem, se algumas pessoas estivessem no meu/nosso lugar compreenderiam-nos. Quando se fala das diferenças entre rapaz/rapariga os aspectos que são mais evidentes são os órgãos genitais e os seios da mulher, para além do cabelo comprido. Então imaginem o que é para uma rapariga ter os seus seios pouco ou nada desenvolvidos.
Fica a faltar-nos algo para nos sentirmos mais femininas e tudo isto acaba por afectar a nossa confiança, auto-estima, relacionamento com o sexo oposto, tudo mesmo. O Verão é um pesadelo, o ter que ir a praia e ver  adolescentes 10 anos mais novas com o peito que não nos importaríamos de  ter, tudo isso nos deixa tristes.

No meu caso em particular, fiz trabalhos com crianças mais pequenas e até elas nos apontam o dedo e dizem “Tu não tens mamas, não precisas de usar sutiã”, tal como trabalhos com jovens de 18 anos na praia e piscinas no qual eu nunca me despi, pois enquanto monitora iria parecer uma pequena criancinha sem peito e não me queria sujeitar a mais comentários. Evito ir a praia com amigos e se vejo alguém conhecido vou para mais longe. Tenho vergonha do meu corpo. Tenho uma cara de menina e com o meu corpo nada ajuda a parecer uma pessoa mais crescida.
Para que me consigam imaginar melhor sou uma jovem de 1,60cm, com 52 quilos, sou magrinha, a meu ver até sou proporcional, tirando a questão óbvia que não me agrada e que vocês já sabem.

Sei que muita gente se consegue conformar com o pouco que tem e admiro essas pessoas, pois já o tentei fazer e não consigo. Como costumo explicar, e para ver se me compreendem melhor, (sei que será uma comparação extrema, mas se pensarmos bem poderá fazer sentido) as mulheres que sofrem de cancro na mama e tem de retirar o peito ficam tristes e sentem que perderam a sua feminilidade, agora imaginem o que é nunca o terem tido, sei que o caso do cancro é mais grave, mas a tristeza é comparável.

Lembro-me que na altura em que o peito começou a crescer às minhas colegas houve um rapaz da minha turma que me disse que eu não tinha nada. Isso são coisas que não se esquecem, ficam marcadas e que nos entristecem.

Não posso no entanto dizer que até aos meus 21 anos fui uma pessoa infeliz. Apesar desta minha fraca auto-estima passei ótimos momentos, tive vários admiradores, andei com algumas pessoas mas nunca deixei nada avançar entre mim e o sexo oposto pois não estava preparada para mostrar os meus poucos ou nenhuns atributos, pois há gente que não calcula que são assim tão pequenos porque os sutiãs disfarçam um bocadinho.

Sinto-me envergonhada quando vou ao médico e tenho que levantar a camisola para me auscultar, quando vou fazer exames e tenho de retirar a roupa, o vestir-me num ginásio ou noutro local ao pé de outras pessoas. Sinto que é o passar uma vida cheia de vergonha que não deixa gozar as coisas em pleno, pois por muito que se possa ter uma cara bonita, um corpo minimamente bem feito, rodeada de pessoas fantásticas, entre muitas coisas há algo que nos falta.


(Próximo post – Marcação da cirurgia)

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